Há, dentro de mim, lembranças de um tempo antigo, que não passa da mesma forma agora.
Eu costumava contar os dias ausentes.
Dividi-los por cores, numera-los por intensidade, nomeá-los - classificando-os - como por exemplo coração partido, sorriso agudo e mãos incapazes de se moverem.
Os minutos na tua ausência eram tão eternos, e eu os passava, tranquilamente, a contar os buracos na parede, a sorrir para as nuvens e a conversar com a pequena Pantera... a minha gatinha.
Estive sempre conformada com a sua ausência constante, aceitei facilmente me desprender do mundo para prender-me somente a você, para mim era uma escolha óbvia.
Entretanto isso fez com que eu estivesse sempre só, e nunca pudesse dividir minha dor com quem quer que fosse. Com você eu jamais a dividiria, não era capaz de lhe causar nenhum sofrimento se quer. Sempre fiz tudo ao meu alcance para te fazer sorrir.
Quando a tua ausência durava horas, então podia sentir que um pouquinho de loucura me tocava, e eu me controlava, não podia ceder de maneira alguma, necessitava estar sã - para agradar ao meu amor quando ele voltasse.
Confesso que era preciso muito auto-controle, e acima disso, uma esperança muito pura - uma certeza entorpecente, de quê tu irias voltar.
Mas é claro que eu sentia medo que tu nunca viesse... Porem ainda sim, lhe esperaria para sempre ou lhe procuraria se fosse necessário.
Afinal tu fostes a luz e a escuridão que eu via.
Tu fostes a minha única companhia.
Tu me fizestes ser assim.
Silenciosa e amedrontada.
Aprisionaste-me dentro da tua mente e corpo, e lá - estando sempre só, pois estavas ausente até mesmo quando estavas ao meu lado - eu pude pensar e ver as coisas mais claramente.
E então percebi, o meu limite estava bem ali.
Não suportaria mais.
Não contaria os buracos da parede como uma idiota.
Então foi como se dois astros enormes estivessem colidindo dentro de mim.
Parti-me.
Parti.
Para ti, não viverei nunca mais.
Minutos, horas, dias - eu não preciso mais conta-los, nem se quer prestar atenção se eu quiser.
São todos meus.
Só meus.
Eu não preciso mais esperar-te.
Nem preciso estar sempre só.
Não preciso nomear nada.
Não preciso sentir medo.
O tempo é outro agora.
É devagar porem leve.
Não há nenhum nome - por mais complexo e cheio de significados que seja - capaz de descrevê-lo de forma correta.
Nem é preciso, pois vivo muito mais do que antes. Não tenho mais tempo pra classificar lembranças.
É um tempo puro de sentimentos bons.
E cheio das minhas decisões e erros.
Afinal, é da minha vida que se trata.
Posso ser tão errada como você, mas sou eu mesma.
E foi isso - admito - que eu levei um certo tempo para perceber.
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