quarta-feira, 21 de novembro de 2018

vomito palavras a ninguém
porquê ninguém é capaz
de suportar ouvi-las

vomito-as em frente ao espelho e
olhos sem piscar
nem mover um centímetro além
assistem para compilar
deprimentes
depreciativas
memórias e sonhos posteriormente

minha loucura dilacerante e a
minha lucidez incapacitante
objetos cortantes
na neblina aterradora
dos atos perdidos
das madrugadas a míngua

vomito palavras
mas as vomito em silêncio,
escuridão que cerca meus sonhos,
dor que reflete nas calçadas quando é dia e
brilha, brilha audaciosa,
me é impossível não enxerga-la

vomito palavras
mas contenho-me,
não as vomito todas de uma vez,
pois eu mesma já faço
esforços colossais
para ser capaz de suportar expeli-las e então
as escutar e então as assistir e então as
compilar e por fim
as recordar
com a certeza da impossibilidade e da
inoportunidade de reproduzi-las a outrem

não há como manter
tudo dentro de meu ser
ecoando
ricocheteando nas paredes
provocando rachaduras e
choques profundos

por isso eu
vomito palavras e então
eu escorrego nelas,
fico só,
caída ao chão
não desejo me levantar,
estar de pé é estar passível de cair,
e estou tão ferida após tantas e tantas quedas,
eu não suporto mais vencê-las,

quem sou eu que se reinventa a cada nova vez,
que estica a perna e dá um passo adiante,
quem eu sou?

que promete a tudo arrastar?
que devora até mesmo o mais terrível pesar?

vomito palavras a ninguém porquê
ninguém é merecedor de ouvi-las
é um terrível fardo a sustentar

se eu toco no assunto de repente
o chão fica macio entretanto denso
e ele os engole
em medos

os seus olhos se tornam vazados e
as suas colunas curvadas
em lentidão
adentrando
as camadas mais superficiais
dessa danosa compreensão

algumas choram
há as que não são capazes de crer
e outras que nada tem a me dizer

e eu entendo todas elas
eu somente
não possuo escolha
estou condenada
a este corpo
e a nele ficar

não possuo fuga plausível
dessa inextricável dor
que me domina

esse olhar mordaz
invade, desfaz
a infâmia paralisa
meu peito esvazia
então eu
vomito palavras e a
escuridão complacente
me abraça em suas correntes
me deixo apenas estar
nada além disso pude engendrar

vomito até a última gota de consciência que por aqui ainda há