quarta-feira, 17 de outubro de 2018

LIQUEFEZ
e escapou pelas ventas
e escorreu no banheiro
e manchou o colchão
a dor    liquefez toda a razão
e escapou pelo poros do meu rosto
e pingou pelo parquet do apartamento
e escorreu na frente de todos eles
e manchou seus corações
e perturbou suas emoções

quem sou eu
portadora de ilusões
por que respiro?
não encontro mais razões
por que não paro?
dormente em prisões
por que resisto?
infâmia sem perdões
onde me assisto?
para dentro daqueles portões

insensatez

se desfez
em murmúrios

alinhavei o perdão
com fios de prata
que retirei de meu coração
pus minhas mãos nas de alguém
momentâneos devaneios de paz
em que me perco e encontro
entre tantos escombros
tantas frases não-escritas
sentenças não ditas
silêncio estarrecedor

este lugar-comum
em que me permito estar
realmente é muito fétido
é entorpecido com pesar
 tudo tão fumegante e corrosivo
não me surpreende
você também não quis estar

o teu medo vai te guiar
até a saída mais próxima deste lugar

a minha repugnância vai te ensinar
o caminho da porta

minha feiura vai te provar
que fora daqui deve haver
algo mais interessante para se ver

liquefez
a dor liquefez
e eu quis dizer que não
busquei negar entorpecida
braços estendidos no chão,
e faminta
mas as minhas retinas iluminadas
assistiram enquanto escorregou
pelo buraco mais próximo
todo o amor
liquefeito
eu o deixei ir
sabia de antemão
não há razão para o impedir

liquefez
e calibrou
todas as emoções