terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

~~~

Estive só e imaginei-te para que me fizesse companhia.
Te vi vir em direção a mim - atravessando vagarosamente a fumaça do cigarro que eu fumava.
Tu estavas lá, até mesmo na penumbra de meus olhos.
Onipresente, como se fosse algum tipo de deus.
Por toda a tarde eu havia esperado por algo surpreendente - como uma solução imediata para todos os meu problemas - mas só o ar quente da cidade vinha aos meus pulmões.
Respirei-te então.
E esvazias-te como uma lembrança cansada.
Segui.
Confesso que depois respirei todas as soluções num terrível acesso de raiva.
Elas que me são tão desejadas, as quais dedico tanto tempo em vão.
Agora as tenho dentro de mim.
Morrendo para que eu viva um pouco mais.
Tornando-se apenas dejetos do meu ser.
Decidi, por fim, respirar minhas agonias.
Elas que me fazem tanto mal.
Farei com que alimentem minhas células.
Elas que me são tão amargas, tão abundantes.
A vida vocês me dão, suas malditas.
Bebo meu próprio veneno.
Saboreio em meus lábios o seu gosto amargo.
Talvez até meus beijos tenham essa característica agora.
Sim, são venenosos como o são também minhas garras negras com as quais te toco, acaricio e arranho por dentro.
Finjo não saber o motivo que me faz arrancar-te os pedaços, mas o fato é que me alimento de ti.
Completo a mim mesma com os pedaços que roubo de ti, pois sou incompleta.
Tu me amas mesmo assim.
Sou incapaz de saber o porquê.
Não posso ir muito fundo em olhos como os teus.