domingo, 1 de setembro de 2019

III (azul ciano do céu que amo)

concentrei minhas energias
estive contigo sentada a beira do mar  e ventava
seus amáveis cabelos encaracolados balançavam
e persistimos vagamente no silêncio
nas ondas
na ressaca
no vazio da auto estrada
na infindável estridente espera
no afagar de todo o corpo
                  hoje
o vento me traz de volta
fiquei horas prostrada sob tempestuoso céu a te aguardar
passos sorrateiros para nunca acordar
sua doce alma  velar   com amor
ca   ta   tô   ni   ca
conflituosamente pacifica

corpo que cala
cala                   mas diz
cala mas tem tudo a dizer
e cada centímetro de pele se preencheu de palavras
começo a pesar
debaixo das minhas unhas entre os dedos dos pés e das mãos
por todo o colchão
subitamente
todo o espaço do quarto
abri as janelas
todo o céu
e transbordando
alcançando todos os seres
e se tornando todas as coisas e
não coisas possíveis e
pingando
pelo espaço
pelo multiverso

onde não consigo evitar
e onde não posso tocar
e onde estás?

divaguei distante as possibilidades
dois corpos transformados através de um simples contato ou teria sido apenas o meu?
inexorável ausência
arrasto os dias até que o tempo me arraste e quando me refiro a você
sempre sinto uma coisa
quase que como uma tempestade solar
ou um evento ultra cósmico dentro de meu ser

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

—eco
é cor concreta
pintei o verso
bruma incerta
fiz quente
quero
ser

inércia
no meu quarto
meus temores e meus traumas
só eles conversam
eu fico calada
escuto aplastada
e não refuto suas ordens
nem a sua desordem
intrínseca

eco
é contato
contido
abafado
perdido

eco
é cor-de-rosa
o ruído que minha alma emana por aí
um dia me disseram
o vento anuiu
não há mais nada a se pôr

é o que há
é o que há de vir

eco
efêmeros
suspiros noturnos
eu fiz do meu corpo a minha casa
e me trancafiei a sete chaves
—onde estou

caminhando na mata escura
os pés encharcados de dor

me perdi no breu
na sombra do meu eu

paralítica
estática
quebradiça

eco
é controvérsia exacerbada
palavra escrita no cerâmica fria
—ainda nem era dia—
e depois apagada

eco
é contraste incerto
de momentos cristalizados
em papéis         em pedaços
de vidro e em flores ressecadas
lembranças cansadas
uma palavra antiga se estende e me abraça
porém são novos os nomes
expoente pacientemente colocado ali
impermanente

eco é confusão é beira é contusão na pele morena
é desordem em festejo
é todo o mundo em cortejo
meio que pelo avesso

eco
é conturbada jornada
deturpada largada
destinação condenada

eco
dos sons
que o coração costumava fazer
quando estavas por aqui

eco
é consequência

dilacerada
existência

é colisão

conflituosa ilusão
impérvio agudo
gesto de reclusão

é planeta inteiro em erosão
distante dominação
mas que se faz presente
em cada ínfima emoção

eco
é colorido o meu perdão
é construído pelas minhas mãos
e descabido
é sempre fronteira
é fossa escura é flecha certeira

eco dos sons da mata ressonam em meu coração
e confundo os meus pés com o chão
quando piso descalça na terra
estendo minhas mãos ao sol
como cotiledones na pequena terra azul
peço ao vento
que gentilmente me balance
para que eu possa me fortalecer
sem precisar me romper
e desejo por esperanças
em meus olhos
conquanto que a razão entoe
—em todos os momentos—

—não.






quinta-feira, 25 de julho de 2019

II (azul ciano do céu que amo)

Eu dou risada do eterno
nos meus bolsos eu carrego os pedaços de linóleo desbotado
que um dia tu pisastes,
isso é eterno?

Gargalhei.

O eterno se fez
nos amontoados de ossos
dentro de caixas?

Ou em minhas mãos?

O eterno pintou de antemão
toda a paisagem
não restou nenhum centímetro de acaso
pra preencher-me de sensações?

Dei risada,
pela última vez,
o som ecoou até
teu coração
ou só se foi
perdido
em imensidão?

Pintei um  nome
numa folha
publiquei arte
fiquei fitando o céu    por meia hora
e aquilo me pareceu eterno
(que é meio como não sentir o tempo passar
 sim (eu acredito que seja assim
eu diria que eterno é a ausência daquele sentimento que o tempo nos dá
aquele esmagamento, que nos exprime essência pelas têmporas e olhos.

E
banhada pelo sol
poesia me transbordou de palavras
eu quis dizê-las todas a você
e sonhar todos os meus sonhos azuis hortênsia em seus braços.

Quando estou no céu não sei a hora
fico perdida   no agora
é o verdadeiro
presente.

As nuvens embaraçaram os meus cabelos de ideias e acasos banais
constituíram um sentimento novo em minha espinha dorsal
ainda não dei um nome a isto
deixei pairar no ar do meu quarto
me dá mais prazer assim.

As coisas postas em todas as partes.

Inebriantes
curiosidades
são tão mais agradáveis.

Diagramar a realidade a todo momento
custosa tarefa, confortavelmente condicionada
encaixar as pedaços e olhar a fundo
os espaços em branco
por centímetro quadrado.

Esqueço de propósito
só desejo me lembrar
do seu olhar a me procurar.

Jamais quis comprimir com palavras de eternidade
coisa rara tão amada
não quis sobre ela
cravar alguma estaca.

Quis apenas encostar um pouco meu coração
e sentir a respiração
de outro ser além do meu.

Quis estar ali
naquele momento naquele lugar
daquele jeito, meio assim, meio sem fim.

Sem pôr nome, nem dizer que sim
sem abanar a cabeça
jamais compelir
qualquer ato
ou qualquer coisa
deixando como acontecer
seguindo meu fluxo de ser
e gargalhando
talvez junto a você...

Sempre comigo mesma
até o amanhecer.



sábado, 13 de julho de 2019

I (azul ciano do céu que amo)

Minha alma sucumbiu levemente em tuas mãos
E meu coração se aprumou a bater
Foi por um ínfimo instante de descontrole
Em que não encontrei forma de apagar, e brilhou
Abruptamente como um raio
Explodiu no horizonte, soou na imensidão do meu espírito
Temerosa mergulhei-me na escuridão, respirei fundo, apaguei os rastros
O que são essas ideias que contaminam meu ser?
Que realidade caótica está a se formar em minhas entranhas?
Ah, eu deixaria me consumir se houvesse por acaso permitido que toda a sua intensidade invadisse meu ser
Mas minha alma soou tão doce e bela
Eu não pude deixar de notar
E quando me mostrasse
Nos teus olhos
E quando me contasse
Com tuas mãos
Quem poderia em meu lugar não sentir?
Pois antes de que se faça necessário dizer
É fato
Conquanto que não sejam demonstrados
Os sentimentos existem
E há ocasiões em que eles são capazes de consumir a gente
Se não os deixamos algum espaço para que floresçam
Talvez eu não consiga encontrar lugar
Dentro de meu ser
Para a imensidão que compreende
ressacas e constelações
Para o colossal poder
que ondas e olhares imprecisos
são capazes de ter sobre meu ser
Por isso quando estou contigo
É preciso ter muito cuidado
Com o tempo precioso
E é preciso tomar cuidado
Com os sentimentos que se despejam para fora sem avisarem
Deixo minha alma contigo dançar no silêncio, quando imagino tua presença em meu quarto
E deixo me consumir nos raros instantes de descontrole, de forma ocasional, seja como for
Ao menos estarei aqui
Nesse quarto, nesse momento
Eternamente enquanto for
Os dias que não acabam
São eternos de uma forma inexorável
Não como os dias que ficaram - memoráveis - nos nossos corações
Mas como aqueles que realmente nunca acabaram de fato
Minha alma sucumbiu levianamente em teus prazeres
Ela não soube te dizer não
Contrastou teus olhos
No meio da minha confusão
Minha alma repousou bela ao teu lado
Tão bela que até dormiu
Sem sofrer, nem sentir
Sem que houvesse ao que ela temer
O dia se iniciou com o metalizado azul
E os raios e os pássaros invadiam pelas janelas da alma
Sem que eu pudesse minimamente perceber
que o faziam
É este o jeito que me fazes
E eu não posso resistir a sê-lo
Prazerosa essência
Preciosos momentos
Acelerado batimento cardíaco
Incompreensível sensação
Frugal ilusão


sábado, 27 de abril de 2019

acordei a minha boca tinha gosto de mar
manifestação da insônia, mudanças e tal
engendrei um sabor impossível nos lábios
uma pífia tentativa de chegar ao seu lado

acordei
minha garganta tinha areia e eu cuspi no criado-mudo
muitas distorções cognitivas e piadas paliativas
discuti comigo mesma
o céu estava azul ciano? ou pantone 2975C?
eu apenas soube ver com meus olhos,
e talvez nem isso de uma forma plena

acordei
minha memória se estendeu
esticando-se pelas paredes
subindo e descendo
e eu puxei sua linha
lambendo os pormenores
e divagando-os um-a-um
esfregando-os em meus pulsos
e depois espremendo-os
entre meus dedos
tão profundamente
tão vigorosamente
estavam definhando em minhas mãos
estavam se esvaindo entre palpitações
pedaço por pedaço
logo não poderei mais recordar
sim, sim
logo me esquecerei de tudo isto
logo não existirão constelações para amar
logo toda luz de minha alma se ausentará

acordei
meus sonhos contaram histórias
que eu jamais quis viver
o pesar me acompanhou
a realidade do dia-a-dia
nada mais pôde me entreter

acordei
após quantos anos dias pontes
                   meses horas fomes
após quantos códigos fumaça
dores
após quantos terríveis pavores

acordei
quis o silêncio
mas o que veio até mim
tinha um nome diferente
como mãos estridentes
agarrando imponentes
sou pedaços de carne
entre os seus dentes

acordei
era como se
me faltassem as partes
como se eu fosse só estilhaços
esparramados em lençóis floridos
e ali deixados

acordei
com a pele macia queimada
a língua rosa atada
e o peito coberto
de vergonha

acordei
nas manhãs de sol
finjo não os perceber mas
suas sombras me engolem quando as vejo,
e tenho receio de que agora eu seja apenas isso

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

vomito palavras a ninguém
porquê ninguém é capaz
de suportar ouvi-las

vomito-as em frente ao espelho e
olhos sem piscar
nem mover um centímetro além
assistem para compilar
deprimentes
depreciativas
memórias e sonhos posteriormente

minha loucura dilacerante e a
minha lucidez incapacitante
objetos cortantes
na neblina aterradora
dos atos perdidos
das madrugadas a míngua

vomito palavras
mas as vomito em silêncio,
escuridão que cerca meus sonhos,
dor que reflete nas calçadas quando é dia e
brilha, brilha audaciosa,
me é impossível não enxerga-la

vomito palavras
mas contenho-me,
não as vomito todas de uma vez,
pois eu mesma já faço
esforços colossais
para ser capaz de suportar expeli-las e então
as escutar e então as assistir e então as
compilar e por fim
as recordar
com a certeza da impossibilidade e da
inoportunidade de reproduzi-las a outrem

não há como manter
tudo dentro de meu ser
ecoando
ricocheteando nas paredes
provocando rachaduras e
choques profundos

por isso eu
vomito palavras e então
eu escorrego nelas,
fico só,
caída ao chão
não desejo me levantar,
estar de pé é estar passível de cair,
e estou tão ferida após tantas e tantas quedas,
eu não suporto mais vencê-las,

quem sou eu que se reinventa a cada nova vez,
que estica a perna e dá um passo adiante,
quem eu sou?

que promete a tudo arrastar?
que devora até mesmo o mais terrível pesar?

vomito palavras a ninguém porquê
ninguém é merecedor de ouvi-las
é um terrível fardo a sustentar

se eu toco no assunto de repente
o chão fica macio entretanto denso
e ele os engole
em medos

os seus olhos se tornam vazados e
as suas colunas curvadas
em lentidão
adentrando
as camadas mais superficiais
dessa danosa compreensão

algumas choram
há as que não são capazes de crer
e outras que nada tem a me dizer

e eu entendo todas elas
eu somente
não possuo escolha
estou condenada
a este corpo
e a nele ficar

não possuo fuga plausível
dessa inextricável dor
que me domina

esse olhar mordaz
invade, desfaz
a infâmia paralisa
meu peito esvazia
então eu
vomito palavras e a
escuridão complacente
me abraça em suas correntes
me deixo apenas estar
nada além disso pude engendrar

vomito até a última gota de consciência que por aqui ainda há



quarta-feira, 17 de outubro de 2018

LIQUEFEZ
e escapou pelas ventas
e escorreu no banheiro
e manchou o colchão
a dor    liquefez toda a razão
e escapou pelo poros do meu rosto
e pingou pelo parquet do apartamento
e escorreu na frente de todos eles
e manchou seus corações
e perturbou suas emoções

quem sou eu
portadora de ilusões
por que respiro?
não encontro mais razões
por que não paro?
dormente em prisões
por que resisto?
infâmia sem perdões
onde me assisto?
para dentro daqueles portões

insensatez

se desfez
em murmúrios

alinhavei o perdão
com fios de prata
que retirei de meu coração
pus minhas mãos nas de alguém
momentâneos devaneios de paz
em que me perco e encontro
entre tantos escombros
tantas frases não-escritas
sentenças não ditas
silêncio estarrecedor

este lugar-comum
em que me permito estar
realmente é muito fétido
é entorpecido com pesar
 tudo tão fumegante e corrosivo
não me surpreende
você também não quis estar

o teu medo vai te guiar
até a saída mais próxima deste lugar

a minha repugnância vai te ensinar
o caminho da porta

minha feiura vai te provar
que fora daqui deve haver
algo mais interessante para se ver

liquefez
a dor liquefez
e eu quis dizer que não
busquei negar entorpecida
braços estendidos no chão,
e faminta
mas as minhas retinas iluminadas
assistiram enquanto escorregou
pelo buraco mais próximo
todo o amor
liquefeito
eu o deixei ir
sabia de antemão
não há razão para o impedir

liquefez
e calibrou
todas as emoções

terça-feira, 14 de agosto de 2018

a acidez do meu estômago
verteu pela calçada desnuda
até a valeta imunda
contaminando o meu entorno
contrastando o horror e a fome
que meu corpo acusa
são infindáveis

os ossos quebrados num ranger de dentes
estilhaçados num piscar de olhos
subjugados sem hesitação
entregue em minhas mãos
alguma substância letal
para me distrair desta emoção

a podridão de meus órgãos
ascendeu
etérea
num instante tudo desapareceu
subverteu em dor até mesmo
a resiliente ramificação de verde
que considerei tão admirável um dia
ela também agora se perde em meio a precipitação

o cheiro pútrido no ar denuncia
sou mundo inteiro em agonia
meus terrores mancham concreto
ardem puros aos olhos alheios mas
resumem tudo a indistinguível fumaça infértil
e eu os permito não quero refutar à ninguém

o badalar das horas a ressonar
o triste descaso a espreitar
incongruente corpo
inconstância a me arrastar
sigo faminta a buscar
entorpecidos sonhos
ridículas fugas

deito-me no chão frio
meus sonhos não são sonhos
são pinturas dos meus medos
me invadem como você o fez
e deles sou incapaz de me desfazer
como seu toque em meu ser

o desespero em meu olhar
é passível de se abominar
por isso te peço
não vá olhar em meus olhos
não vá se perder no desolado
descampado mutilado castanho

o arquear em minhas costas
pesa a sala inteira
e me entope de remorsos
do não dito e do não feito
sou toda anseios

noites a velar
janela como um astro a iluminar
impossível refutar
estralado olhar
estrelado luar

onde mais posso repousar
se em lugar algum encontro paz?

terça-feira, 24 de julho de 2018

Displicentes verdades

Tu me dizes palavras, e eu sou capaz de sentir o gosto delas.
Quando invadem meu corpo, displicentes, tornam-se verdades.
Antes disso eram apenas palavras, e antes delas, apenas a tua boca pela qual anseio inexplicavelmente todas as manhãs.
Agora verdades amargas encrustadas em minha pele.
Das quais não possuo hipótese de me libertar.
Tu me olhas fugaz, e eu queimo como se fogo se lançasse do teu olhar.
Quando cada ínfimo pedaço de minha existência desaparece em flamas diante de ti percebo o real valor que ela te representa. Fui feita para ser consumida.
Antes apenas tua imagem distante e pacífica, um fortíssimo odor inesperado no ar, confusão.
Agora meu corpo desfeito em cinzas - dominado pela inépcia - se esforça em vão para permanecer.
Não posso reparar os seus atos de nenhuma forma.
Você pode ver, são todos seus.
E eu, sou toda minha
E nada mais há de ser posto.
Tu me trazes o silêncio ensurdecedor da dúvida, e eu o internalizo, permito poluir os meus sonhos.
Quando cada certeza que há em meu corpo desvanece no céu azul há muito menos do que eu pensava haver, está tudo se apagando e eu não pude me conter.
Antes olhos que no cintilante horizonte se perdiam a sonhar.
Agora toda a escuridão que se possa imaginar.
Da qual faço parte sem nem ao menos ambicionar.
Não posso me controlar diante disto, nem mesmo posso me afastar.
Em meu coração não consigo relevar essa vontade que existe e que sempre cresce, esse ímpeto que rege meu corpo que diz "nunca deves parar".
Tu rompestes o laço que eu atei em puro amor, e num turbilhão agridoce eu me afoguei em pavor.
Quando soltastes - flutuei - e onde estou agora é irrelevante a ti.
Antes disso um belo laço, demonstração real da minha ilusão banal.
Agora somente ausência.
Tu me abandonas, e eu me sinto tão bem só.
Quando teus passos indistinguíveis seguiram o rumo incerto da tua existência, por um momento meus olhos ameaçaram transbordar.
Antes disso pensei que nunca irias partir.
Agora sei qual era o peso da tua existência sobre a minha.
Da qual eu fui, felizmente, poupada.