sexta-feira, 9 de agosto de 2019

—eco
é cor concreta
pintei o verso
bruma incerta
fiz quente
quero
ser

inércia
no meu quarto
meus temores e meus traumas
só eles conversam
eu fico calada
escuto aplastada
e não refuto suas ordens
nem a sua desordem
intrínseca

eco
é contato
contido
abafado
perdido

eco
é cor-de-rosa
o ruído que minha alma emana por aí
um dia me disseram
o vento anuiu
não há mais nada a se pôr

é o que há
é o que há de vir

eco
efêmeros
suspiros noturnos
eu fiz do meu corpo a minha casa
e me trancafiei a sete chaves
—onde estou

caminhando na mata escura
os pés encharcados de dor

me perdi no breu
na sombra do meu eu

paralítica
estática
quebradiça

eco
é controvérsia exacerbada
palavra escrita no cerâmica fria
—ainda nem era dia—
e depois apagada

eco
é contraste incerto
de momentos cristalizados
em papéis         em pedaços
de vidro e em flores ressecadas
lembranças cansadas
uma palavra antiga se estende e me abraça
porém são novos os nomes
expoente pacientemente colocado ali
impermanente

eco é confusão é beira é contusão na pele morena
é desordem em festejo
é todo o mundo em cortejo
meio que pelo avesso

eco
é conturbada jornada
deturpada largada
destinação condenada

eco
dos sons
que o coração costumava fazer
quando estavas por aqui

eco
é consequência

dilacerada
existência

é colisão

conflituosa ilusão
impérvio agudo
gesto de reclusão

é planeta inteiro em erosão
distante dominação
mas que se faz presente
em cada ínfima emoção

eco
é colorido o meu perdão
é construído pelas minhas mãos
e descabido
é sempre fronteira
é fossa escura é flecha certeira

eco dos sons da mata ressonam em meu coração
e confundo os meus pés com o chão
quando piso descalça na terra
estendo minhas mãos ao sol
como cotiledones na pequena terra azul
peço ao vento
que gentilmente me balance
para que eu possa me fortalecer
sem precisar me romper
e desejo por esperanças
em meus olhos
conquanto que a razão entoe
—em todos os momentos—

—não.