Minha realidade derrete sobre meu corpo - venenosa - impalpável para todos os outros mas á mim ácido na pele morena e macia, á mim fumaça densa e asfixiante que invade abruptamente os pulmões.
Á mim terror noturno que não deixa brechas para descansar, e que rasga meu corpo inocente, puramente vil.
Sucumbo só envolvida em minha pútrida escuridão - e por debaixo de minha pele, e por entre os meus ossos - tempestades ácidas tomando conta de tudo e a tudo derretem com sua força, com sua vontade colossal.
Necessito sobrevive-las, mais um dia, e talvez mais outro, mas há dias em que não possuo perspectiva de sucesso.
Necessito vencer este íngreme caminho diante de meus olhos, árduo e perverso mas há dias que se estendem dolorosamente e em que no meu ser talvez cesse de existir todas as coisas boas e puras que o fazem seguir.
Há fatos que só podemos lamentar e desejar - inutilmente - sobre a sua não-ocorrência.
Entretanto de minha boca não saem palavras, o sangue frio controlou minha língua.
Há palavras pretensiosas em meus ouvidos a ressonar.
Sempre iguais, nunca dizem o que pretendem dizer.
Há um certo absolutismo que me assiste através de olhos alheios, que avaliam e que prescrevem objetivamente, esperando de mim um pouco do mesmo.
Há - incontáveis e ameaçadoras - rachaduras nos pilares que estruturam todo este ser.
De onde escapa esta luz, esta coisa, essa inominável essência.
Há objetos que trago comigo, em meus bolsos ou refletidos em minha alma que veementes recordam suas outras existências em outras realidades de outros tempos.
Eles são parte de mim até mesmo quando os abandono por aí.
Minha realidade é disforme, desfocada e outros não conseguiriam a ela resistir - displicentes com os olhos calmos - caminhando sob as árvores assistindo a luz se dissipar por entre folhas e galhos.
Minha realidade é ácida, é inexplicavelmente corrosiva - outros não seriam capazes de aceita-la em seus parâmetros. Milhas distanciam o que vemos e nossos sentimentos de nenhuma forma coincidem.
Outros não saberiam lidar, em uma noite de junho, não conseguiriam lembrar os seus próprios nomes.
Nem entenderiam qualquer palavra que lhes dissessem, nem seus olhos haveriam de cruzar com seres vivos de qualquer espécie.
Minha flor que nasce no asfalto - não poderiam compreende-la - jamais testemunhariam os seus infindáveis esforços, a sua eterna luta pelo brilho singelo de um raio de sol ou por uma gota de chuva que venha tímida.
Não comove á ninguém o triste descaso da sola de sapato que sem perceber a esmaga e outras mais, corriqueiras, impessoais e o fazem diariamente, dentro de sua normalidade, dentro de seu padrão.
Eles pensam: "Existem jardins", e consolam seus crimes a noite.
Minha dor que se faz bela, não poderiam digeri-la com seus olhares vagos e incoesos, jamais poderiam senti-la com seus temores superficiais a nublar a realidade, de nenhuma forma poderiam reconhece-la tão isolados se encontram, em suas nuvens nos céus, em suas salas seguras no topo de suas torres cristalinas blindadas.
Qualquer atenção empregada em esforços empáticos seria impactante demais, poderia ferir a superficialidade de suas certezas, poderia desvencilhar tudo o que há - e também poderia, utópica projeção pessoal - dar-lhes o sentido real do que pretendo expressar mas que em inúmeras vãs tentativas falho miseravelmente.
Minhas mãos que lutam - jamais saberiam expressar de qualquer forma - se as amam ou se a elas se fazem indiferentes, passantes distantes de outras realidades, que nada querem saber sobre realidades tempestuosas e toda a vida que compreendem em si.
Seus olhos não haveriam de distinguir tudo o que há nesse interior corrosivo nessa forma que ainda se mantem com suas dubitáveis razões de ser.
Haveriam de criar novas patologias, novos nomes, novos espaços para me trancafiar - além do meu próprio - o qual já me aprisiona, incessantemente, sem esperanças que acabe.