Sigo, os dias carregam consigo a verdade e eu não sei virar meu rosto.
Sonhei por horas contigo.
O seu rosto não pude ver, mas tenho certeza, era você.
Eu quero ir, quero desesperadamente ir ao seu encontro.
Porem me foi aconselhado que eu não fosse.
Me disseram que haveria de ser melhor dessa forma.
Minha mente indigna-se com tais afirmações.
Tenta se enganar mas é impossível fechar meus olhos uma vez que eu os abri, é impossível tornar indistinguível a tua imagem uma vez que a tive diante de mim.
Ela se tornou eterna a partir desse momento. Inexoravelmente eterna.
Em meu cotidiano encontro recorrente a ideia de que já não posso mais, não sou capaz de suportar a realidade.
Sigo, incoerentemente.
Pelos caminhos onde me perco, meus olhos se deparam a cada instante com as verdades absolutas que estão sempre dispostas para que todos as vejam - são puras, queimam a pele macia e desfazem os sonhos em pó.
Não existe nada de admirável nelas, são apenas intragáveis intransponíveis, e em meu ser não encontro meios de fazê-las sumir... ou quem sabe torna-las um pouco menos disto que não me agrada.
A vida se compõe disto, cujo controle não se é passível conquistar através de qualquer meio, porém não permito que a minha vontade seja suprimida por este fato tão comum.
Em todos os espaços - inconvenientes - me invadem, e eu permito que engasguem meu ser, permito ao seu amargor que me sufoque, pois sou tão palpável quanto o seu veneno amargo, não me seria possível negar.
Sigo, a minha essência se faz disso.
A minha vontade ultrapassa toda a amórfica massa cinzenta que envolve o cotidiano, ela me move mais a frente - e um pouco mais - todos os dias.
Ela me deixa a repousar plácida nos campos dourados, vento que afaga meu ser afável, e eu pego fôlego no bater de asas dos pássaros que desavisados sobrevoam livres (por enquanto) impunes diante o caos.
Meu coração se aperta de novos jeitos, o espaço que foi dado a ele é insuficiente por isso tenta - de todas as formas - se encaixar. Enquanto possuir capacidade ilimitada de encontrar outra posição, latejante-dolorido-vermelho-órgão jamais sucumbirá.
Sigo em frente, apago as palavras que quis te dizer no outro dia agora são todas inúteis você pode ver.
Nunca sairão de minha boca, nunca partirão de meus pensamentos e divagações noturnas.
O vento que bate na copa das árvores agrada ao meu coração e me concentro calma, tentando entender a mensagem que ele pretende estender aos meus sentidos.
Quando estico as costas no chão úmido algumas coisas que eu costumava amar perdem seu sentido.
Talvez fosse apenas isso que procuravam me dizer.
Há dias em que a angústia se faz todo meu ser, não consigo me aquietar, não posso coibir o que há em mim.
Sigo, e apago os meus passos exitantes até sua imensidão incerta.
Todas as minhas células choram na inércia, dentro de mim viajo milhas para longe, semanas e semanas estagnada no mesmo espaço.
Pequenas alterações quase imperceptíveis, porquê me importo em saber?
Há dias em que a tua existência parece tocar algo além de meus olhos... entretanto estou inclinada a pensar excessivamente, é preciso me conter.
Há qualquer imprevisível brilho que surge e que rapidamente se desfaz na escuridão, e então, estou submersa em confusão.
Há dias em que eu não posso negar-te, tua montanhosa existência cobre o sol, boca que diz palavras banais mas não consigo escutar, estou submersa em contemplação, estática.
Minha cautela terminou logo ali, onde começaram as suas mãos.
Seus pequeníssimos belíssimos detalhes são pesados demais para meu coração recordar.
Sua risada é muito doce para que eu possua maneiras de não me deliciar, e por ela pedir, mais, mais, mais, mas.
Sigo para então me perder logo adiante.
Nada pode me parar.
Veemente a verdade me toca - e o faz propositalmente - é necessário que eu não me afogue nesses sonhos, não de forma irreversível.
Meu corpo luta sem forças por um dia a mais, sabor agridoce nos lábios, sorriso a meia-luz e eu não sei mais.
Eu me percebo a impor esta dor como remédio, esse abandono como única companhia, esse silêncio como única resposta, o que será de minha luta?
O que será deste ser?
Poeira cósmica nunca permanece por muito tempo no mesmo lugar.
Sigo. É necessário seguir.
Meu comprimido coração valente sempre a ecoar a harmônica melancólica melodia que apenas a morte haverá de calar.