segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Apagou

A luz apagou-se dentro de mim e o que restava soprei ao vento.
Sou como um verme, um lixo. Um ser desprezível que rastejava aos teus pés, e que se desculpava por viver, respirar, sonhar.
A minha existência se quer tem nome.
A minha existência se quer tem forma.
A minha existência apenas se acostumou a rastejar ao teu lado e assim fui feliz enquanto pude.
Agora, quando tento pensar no teu rosto a tua imagem se desfaz e desaparece.
Se quer posso sonha-lo, ou ama-lo outra vez.
Sou incapaz de me lembrar do som da tua voz.
Tudo se desfaz quando penso em ti, até eu mesma, me desfaço.
Me desfaço por completa, até me tornar - por apenas alguns segundos - as pedras por onde tu caminhas, teus olhos, tua boca, o céu que tu amas, o vento que te acaricia o rosto, as palavras que te consolam à noite.
E então, de repente, sou verme outra vez, e rastejo à tua procura.
Se eu pudesse desejar algo, desejaria que tu não existisse nem mais um segundo, desejaria que tu partisse da minha alma para sempre, sem vestígios e sem dor.
Mas à mim, verme, não foi dado nenhum desejo.
Não foi dado nenhum nome, nenhuma forma para chamar "minha".
À mim foi dado apenas caminho para seguir.
E eu rastejo, seguindo e esperando o dia em que a minha existência há de criar asas para que eu nunca mais rasteje, e possa ainda, voar, voar para bem longe e fugir, tudo o que eu desejo é fugir de você.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

dor

É difícil aguentar a noite fria, que traz consigo os passos vazios dos estranhos, que não me olham, que não me querem, que nem pensam em me dar as mãos e perguntar porquê estou ali. E essa solidão de não ouvir mais nenhuma das tuas palavras doces, me consome. Porém também não podia mais aguentar o mal que elas me faziam e o vazio que me causavam. A tua dor doce, me tinha gosto de felicidade, e foi com muito pesar que descobri ser tudo falso, inclusive, o que estava dentro de mim. Não pude aceitar que tamanha dor me fosse imposta, justamente por ti, à quem tanto amei.
Agora, (para lhe retirar este fardo, e também para poder diminuir um pouco do meu) eu mesma estou a me impor tanta dor que se pode encher uma sala, e cobrir todos os móveis, da cor cinzento-pálida. Dor viscosa, de amargo gosto - você pode toca-la, porém não aconselho, gelatinosa e grudenta, ela tem textura de lágrimas e lama - e que causou morte dos meus sonhos, causou a morte dos meus olhos, e acima de tudo causou a morte do meu coração. Mas tudo já estava condenado, eu sei muito bem disto, pois você já havia me dito, as palavras vazias que hoje enchem a minha mente, que infestam meu corpo como vermes, que se repetem como um eco infinito, um chofre de palavras irônicas.
Talvez as pessoas digam, que as pessoas infelizes o são, porque o querem. E eu lhes digo, que o ser humano é a criatura mais triste e mais vil que existe. Está em nossas mentes, e cada um de nós é capaz de enxergar de forma diferente, mas você pode ter certeza que todos enxergam. E até os que fecham os olhos, são obrigados a sentir a doce presença da perversidade, da solidão, da tristeza que nos aflige. O que muda é a intensidade e a cor. E essa dor, que eu causo a mim mesma, acreditem, é absolutamente necessária. Ela pode inundar e afogar tudo o que há em mim, mas ela não ultrapassa meus limites, ela ainda me permite viver e sorrir quando for conveniente. Está me mim, como os teus olhos pousados nos meus naquela época, está todo o tempo, e em todos os lugares, escorre de mim, e fica o cheiro quando eu passo. Mas é a minha dor tranquila, e ela jura para mim, é passageira. Quando penso que já chega, não posso mais, ela me diz, calma: "Sou tão mortal quanto os sonhos que matei." E é isso que me faz dormir.