domingo, 27 de maio de 2018

Morte III

Naquele final de tarde//final de era
Andei em sua direção
Exceto que não era você
Desesperada
Mas os passos contidos em meio a imensidão de corpos que
- incoerentemente -
se agrupavam ao seu redor
Todos ali já sabiam
Mas suspiros de alívio ou seria somente o pútrido amor que impregnava aquele ar?
Escolhas inconscientes pesam os dias de dor, e eu nunca soube
Quando o momento de desaparecer finalmente nos alcançou, eu não soube precisar de nenhum modo a sua eminente chegada não pude estar preparada para ela
Meu corpo estremeceu, como costuma fazer todas as vezes
Fora de controle, num uníssono choro, encontrou alento apenas quando se uniu aos outros corpos
e apagou-se em multidão
Caixote de madeira&flores&adornos
Dentro de um padrão estético desejável, mas quem os desejaria de qualquer forma?
Estaríamos todos histéricos, ou estaríamos todos sãos?

Andei na sua direção, porque não seria eu capaz de acreditar?
Assisto, e como sempre, me calo
Sou platéia, protagonista e roteirista desta mesma dor
Assisto mas não acredito naquilo que assisto
Semblante sereno diante de mim - ainda seria ele passível de ser nomeado "um semblante"?
Prescrutei cada centímetro, cada detalhe, corpo fixo como se estivesse ali desde sempre
exceto que nunca esteve mas mente agitada, incongruente, desconexa
Puseram o sorriso em ti? Ou fui eu quem o pus?
Procurei pelo céu para acalentar a irremovível vertente de dor
que escorria
- vergonhosamente -
das minhas órbitas oculares
e ele que se fez rosado diante a todo o sofrimento
não pretendeu contradizer a realidade palpável
pelo contrário pesou mais forte
esmagou-me em lamentos febris
com sua paleta cor-de-rosa
e palavras amigas
que não diziam verdades
diziam apenas o que acreditavam ser o mais adequado, eu me farto disto facilmente

Andei - cautelosamente - uma última vez em direção a você
Exceto que eram apenas os seus
Que estavam de fato ali
Derrotada e dormente
Mas os passos firmes e admirei profundamente aquele sorriso
Era um sorriso por acaso, ou fui eu quem viu um sorriso ao acaso?
Irrelevante
Mas coração em chamas e nada que o possa acalmar
Mas calado choro em conformidade com a calada partida
Mas absortas mãos a tocarem cabelos repetitivamente
Seriam chamados de cabelos humanos mesmo assim?
Senti-os como se fossem os de um boneco-de-pano,
e, no momento seguinte,
Parecia-me que eu iria
- finalmente -
irromper em dor, nada mais suportar e para fora despejar tudo o que aqui ainda há
Foi apenas uma sombra que pairou poucos instantes sobre mim
Até o momento em que, absolutamente vazia de sensações, me percebi a caminhar pelas ruas e observar as árvores como se nada se passasse de diferente dentro de mim.

Andei tranquilamente para o azul anil que pintou o céu sem fim
apagou o tom carmin
andei na direção
em que sonhei
um dia te encontrar
alguma outra vez
E segui desde então sem nunca mais tornar a ver
sorrisos da mesma forma em qualquer ser.


segunda-feira, 21 de maio de 2018

Olhares impotentes que nunca me deixam só

Todos os dias eu sinto o peso de seus olhares pousados sobre mim.
Minha dor cria gravidade e os atrai continuamente.
Nos momentos em que estou só não tenho esse peso adicional, fico apenas com o meu, velha companhia.
E ele já é o suficiente para partir-me, eu não desejo por mais...
Mas esses olhares me pousam de forma natural, nunca os clamei entretanto não os posso negar.
Eles me acompanham onde vou - não importa com quem estou - não importa se diante deles me sinto falante de alguma misteriosa língua a qual não se é possível, através de qualquer meio, compreender.
Em suas vagas contemplações - ///intransponíveis barreiras me cercam/// - mas não há formas de que entendam que eles que não podem, eles jamais poderão me tocar.
Mas nada impede esses olhos de me encontrarem /sentinelas/ todos os dias dolorosamente repousados sobre a minha existência.
Abruptos eles invadem meu ser. Eu desejaria para-los se eu pudesse.
Não possuem piedade alguma enquanto agitam tempestades em meu ser.
Sei que não são maldosos, mas me esfacelam - retiram-me a perspectiva de forma brusca.
Eu sei que não intencionam criar-me qualquer tipo de dor, mas servem-me como demonstração da realidade inegável de tudo o que houve e de tudo o que me foi renegado ser.
Catastroficamente os batimentos cardíacos nunca cessam.
Venenosamente a minha consciência reflete de forma ilimitada em noites frias.
Contrastando existências dentro de mim, acusando, gritando o que não pode ser solucionado.
Não se pode retirar as venenosas vozes, pois profundamente em mim estão cravadas e sem limites elas ressonam, sem expectativa alguma de que um dia possam parar.
E sobre elas pesam esses olhares e sobre os olhares pesam essas verdades /indizíveis-impregnáveis-inegáveis/ e sobre elas pesa a certeza de que nunca haverá maneira de consertar tudo o que houve.
E tudo isso está sobre mim todo o tempo.
Já não sei quem sou, se sou dor, impotência ou pesares apenas.
Se sou apenas o que esses olhos pousados em mim são capazes de perceber.
Se sou apenas esses olhares dirigidos ao meu ser,
O que resume Anna Karenina? Quem sou eu?
Ás vezes tenho medo de saber, e ás vezes, tenho certeza de que não existem definições possíveis e nem o porquê de que existam.
Não sei onde estou ou em que lugar posso me encontrar.
Existência esmagada - sufocada - sofrivelmente só.
No meio de tudo isso, nada alem de dor é distinguível aos meus olhos, que nunca sabem se olham para fora ou para si, quando a paisagem nunca muda de qualquer forma.