terça-feira, 8 de julho de 2014

Não sei o que.

De que me servem as palavras se não sei dizer mais o que sinto ou o que penso.
Todos á minha volta tão fora de si, e eu também ando tão fora de mim...
Se eu sentisse ao menos eu saberia como eu deveria agir, porem nada me toca, nada me doí e nem sei para onde devo olhar.
Ou quem me agrada.
Ou o que é que brilha muito mais do que qualquer coisa dentro da minha mente.
É tão ofuscante que fico sem saber, não consigo distinguir o que é isso dentro de mim.
Os que encontro por aí sempre me dizem coisas para me acalmar, mas nem sei quem eu sou.
E vocês não me conhecem para saberem quem eu sou também.
Então por favor, parem de me dizer essas coisas!
Parem de concluir e saber o que nem eu mesma sei.
Parem de tentar pôr me dentro de um catálogo, estou viva - deixem-me em paz, eu não quero que me congelem no tempo, eu não quero ser limitada por ninguém.
Estou tonta neste redemoinho de sentimentos que eu não sei controlar.
Tudo ocorre muito mais rapidamente do que sou capaz de pensar, quando vejo nem sei mais onde ou com quem estou, de repente estou só e choro sem saber o motivo das lágrimas.
Tenho medo de decidir, tenho medo de saber o que quero.
Eu sou uma perdida, eu clamo pelos sentimentos e grito a todos que os sinto na minha pele, que os tenho dentro de mim.
Mas tenho os olhos vazios - tenho a alma triste, estou condenada.
Estou sempre só.
Sempre a procura de alguém, sem que ninguém sirva, sem nenhuma satisfação.
Tudo pelo vazio.
Tudo pelo vazio.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Inquieta

Me dizes que tuas mãos doem demais, que teu choro não cala, teu corpo não descansa.
Eu sei muito bem de tudo isso.
Este pesado no seu coração.
Essa lucidez nos teus pensamentos.
A dor pura que tão bem conheces.
Isso grita dentro de ti.
Te diz: "Fazes alguma coisa, por favor, tens que fazer algo."
Mas tu não sabe o que fazer para matar a dor que tu tens ou o tempo que te aflige.
Tu não consegues lembrar o que perdestes há tanto tempo atrás.
E ainda - ás vezes - a indiferença toma as tuas ideias, e nem queres saber de nada, apenas te perguntas: "Por que tanto?"
Ou então clamas que não aguenta mais, mas nada adianta, resmungar ou deixar para lá - as coisas continuam sempre as mesmas.
Você se sente incapaz de ser completamente indiferente.
Essa não é a maneira de se ver as coisas por estes teus olhos, disto sei muito bem.
Sentes que a tua dor nunca poderá ser entendida por sequer uma pessoa em todo mundo.
E nesses momentos você chora e quase morre na solidão.
Incompreendida, inútil.
Ninguém realmente está interessado em você.
Tudo é exagero e infantilidade resplandescente aos olhos estranhos.
Você mesma se pergunta se todos não estariam certos. Estariam?
Fica no ar, pesando e fedendo as acusações pútridas, tua fraqueza comovente.
Tua sensibilidade é teu defeito e tua prisão.
Com olhos ainda frios assiste a manha, as luzes, pensas, procuras, tudo acaba sempre igual.
As noites vazias, as promessas por cumprir, não se sabe mais quanto tempo perdido ainda podes perder.
Poderia haver quem sabe uma solução?
Um analgésico para a dor, uma venda para os olhos.
Um sorriso falso bem estampado, um perfume para disfarçar o odor inconfundível que tu tens e que impregna nos lugares.
Uma novo rosto para recomeçar tudo outra vez.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

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Estive só e imaginei-te para que me fizesse companhia.
Te vi vir em direção a mim - atravessando vagarosamente a fumaça do cigarro que eu fumava.
Tu estavas lá, até mesmo na penumbra de meus olhos.
Onipresente, como se fosse algum tipo de deus.
Por toda a tarde eu havia esperado por algo surpreendente - como uma solução imediata para todos os meu problemas - mas só o ar quente da cidade vinha aos meus pulmões.
Respirei-te então.
E esvazias-te como uma lembrança cansada.
Segui.
Confesso que depois respirei todas as soluções num terrível acesso de raiva.
Elas que me são tão desejadas, as quais dedico tanto tempo em vão.
Agora as tenho dentro de mim.
Morrendo para que eu viva um pouco mais.
Tornando-se apenas dejetos do meu ser.
Decidi, por fim, respirar minhas agonias.
Elas que me fazem tanto mal.
Farei com que alimentem minhas células.
Elas que me são tão amargas, tão abundantes.
A vida vocês me dão, suas malditas.
Bebo meu próprio veneno.
Saboreio em meus lábios o seu gosto amargo.
Talvez até meus beijos tenham essa característica agora.
Sim, são venenosos como o são também minhas garras negras com as quais te toco, acaricio e arranho por dentro.
Finjo não saber o motivo que me faz arrancar-te os pedaços, mas o fato é que me alimento de ti.
Completo a mim mesma com os pedaços que roubo de ti, pois sou incompleta.
Tu me amas mesmo assim.
Sou incapaz de saber o porquê.
Não posso ir muito fundo em olhos como os teus.

domingo, 19 de janeiro de 2014

Eu, silêncio e paisagem.

Guardo-me no silêncio, e divido as minhas palavras apenas com o vento, e os pássaros, e as árvores, e as folhas, e as flores.
Estou só - com eles.
Eu sei que eles me escutarão e não deixarão jamais de apreciar-me.
Apreciarão o som da minha voz e a forma que eu digo as palavras, mesmo que sejam idiotices sem significado aparente.
Irão tocar-me, ninar-me, acalmar meu coração.
Irão dizer-me: Estais bem, meu bem.
Seremos assim um.
Sinto até as pontas dos galhos, sinto até o sol aquecer-me, estou eu lá, voando nas asas de algum pássaro.
Penso que por que são vagos eles nunca tiveram muitas pessoas que os admirassem.
Mas eu os admiro, eu me partilho com eles.
Somos um todo agora.
Não ligo mais para os significados que tudo possa ter.
Prestas atenção demais as palavras que podem vir a dizer, ou nos motivos de soprarem as coisas para longe, de crescerem mais para a esquerda ou para a direita, ou florescerem num dia sem sol, pois eu sinto o vento embaraçando o meu cabelo, eu sinto as folhas balançando dentro da minha mente, eu sinto o perfume das flores exalar dentro de mim, sinto até o gosto do céu e sei que disto gosto.
Entenda que se tratam de existências que não precisam de motivos para agirem.
Não justificam em palavras seus próprios atos por talvez considerarem ser impossível descrever a sensação de ser o vento batendo no rosto de alguém, ou a folha que faz sombra no pássaro e na flor.
Pois assim sou também um dia me disseram.
Transparente, ofuscada por todas essas luzes e esses olhos que atravessam até as minhas tripas.
Que até meu sangue sugam.
Que até meus profundos desejos conhecem.
Incompatível com a realidade, disforme.
Vazia.
Derreto ao mínimo toque, sofro se me pensam, tenho medo se me sentem, não suporto o amor e seus fardos.
Perguntam-me se me sinto bem, perguntam-me por que sou tão vaga, tão perdida, tão distraída.
Respondo-lhes, "Aqui não há nada."
Só há a transparência inocente do meu ser.
E a minha boca cheia de palavras e minhas mãos cheias de dor e nada para remediar.
Esses então são alguns motivos de eu ter me acostumado tão bem ao canto doce dos pássaros na manhã, e os galhos balançado fingindo ser chuva para os meus ouvidos, o vento leve querendo me levar, a vida que exala de todos esses lugares, tudo respira, então por que não iria querer eu respirar?
Por estar só?
Estar só é normal. Todos estamos. Todos sempre estivemos.
Como um dia nos tornamos capazes de virar as costas à alguém, um dia também a quem nos vire as costas e se vá.
Sentada só, no meio deste vazio.
Aqui existo tão bem.
Aqui existo também, apesar de só.
E não há com o que me preocupar.
Posso sorrir as folhas, e existir com as flores, pôr me ao lado delas. Quem sabe, florescer?
E o vento vai puxando-me levemente, sussurrando meu nome.
Vou indo com ele.
Estou com ele, agora que não há mais ninguém comigo.
O silêncio é precioso ele me disse.
Por isso o tenho.
E por isso o guardo.