sábado, 27 de abril de 2019

acordei a minha boca tinha gosto de mar
manifestação da insônia, mudanças e tal
engendrei um sabor impossível nos lábios
uma pífia tentativa de chegar ao seu lado

acordei
minha garganta tinha areia e eu cuspi no criado-mudo
muitas distorções cognitivas e piadas paliativas
discuti comigo mesma
o céu estava azul ciano? ou pantone 2975C?
eu apenas soube ver com meus olhos,
e talvez nem isso de uma forma plena

acordei
minha memória se estendeu
esticando-se pelas paredes
subindo e descendo
e eu puxei sua linha
lambendo os pormenores
e divagando-os um-a-um
esfregando-os em meus pulsos
e depois espremendo-os
entre meus dedos
tão profundamente
tão vigorosamente
estavam definhando em minhas mãos
estavam se esvaindo entre palpitações
pedaço por pedaço
logo não poderei mais recordar
sim, sim
logo me esquecerei de tudo isto
logo não existirão constelações para amar
logo toda luz de minha alma se ausentará

acordei
meus sonhos contaram histórias
que eu jamais quis viver
o pesar me acompanhou
a realidade do dia-a-dia
nada mais pôde me entreter

acordei
após quantos anos dias pontes
                   meses horas fomes
após quantos códigos fumaça
dores
após quantos terríveis pavores

acordei
quis o silêncio
mas o que veio até mim
tinha um nome diferente
como mãos estridentes
agarrando imponentes
sou pedaços de carne
entre os seus dentes

acordei
era como se
me faltassem as partes
como se eu fosse só estilhaços
esparramados em lençóis floridos
e ali deixados

acordei
com a pele macia queimada
a língua rosa atada
e o peito coberto
de vergonha

acordei
nas manhãs de sol
finjo não os perceber mas
suas sombras me engolem quando as vejo,
e tenho receio de que agora eu seja apenas isso