Andei em sua direção
Exceto que não era você
Desesperada
Mas os passos contidos em meio a imensidão de corpos que
- incoerentemente -
se agrupavam ao seu redor
Todos ali já sabiam
Mas suspiros de alívio ou seria somente o pútrido amor que impregnava aquele ar?
Escolhas inconscientes pesam os dias de dor, e eu nunca soube
Quando o momento de desaparecer finalmente nos alcançou, eu não soube precisar de nenhum modo a sua eminente chegada não pude estar preparada para ela
Meu corpo estremeceu, como costuma fazer todas as vezes
Fora de controle, num uníssono choro, encontrou alento apenas quando se uniu aos outros corpos
e apagou-se em multidão
Caixote de madeira&flores&adornos
Dentro de um padrão estético desejável, mas quem os desejaria de qualquer forma?
Estaríamos todos histéricos, ou estaríamos todos sãos?
Andei na sua direção, porque não seria eu capaz de acreditar?
Assisto, e como sempre, me calo
Sou platéia, protagonista e roteirista desta mesma dor
Assisto mas não acredito naquilo que assisto
Semblante sereno diante de mim - ainda seria ele passível de ser nomeado "um semblante"?
Prescrutei cada centímetro, cada detalhe, corpo fixo como se estivesse ali desde sempre
exceto que nunca esteve mas mente agitada, incongruente, desconexa
Puseram o sorriso em ti? Ou fui eu quem o pus?
Procurei pelo céu para acalentar a irremovível vertente de dor
que escorria
- vergonhosamente -
das minhas órbitas oculares
e ele que se fez rosado diante a todo o sofrimento
não pretendeu contradizer a realidade palpável
pelo contrário pesou mais forte
esmagou-me em lamentos febris
com sua paleta cor-de-rosa
e palavras amigas
que não diziam verdades
diziam apenas o que acreditavam ser o mais adequado, eu me farto disto facilmente
Andei - cautelosamente - uma última vez em direção a você
Exceto que eram apenas os seus
Que estavam de fato ali
Derrotada e dormente
Mas os passos firmes e admirei profundamente aquele sorriso
Era um sorriso por acaso, ou fui eu quem viu um sorriso ao acaso?
Irrelevante
Mas coração em chamas e nada que o possa acalmar
Mas calado choro em conformidade com a calada partida
Mas absortas mãos a tocarem cabelos repetitivamente
Seriam chamados de cabelos humanos mesmo assim?
Senti-os como se fossem os de um boneco-de-pano,
e, no momento seguinte,
Parecia-me que eu iria
- finalmente -
irromper em dor, nada mais suportar e para fora despejar tudo o que aqui ainda há
Foi apenas uma sombra que pairou poucos instantes sobre mim
Até o momento em que, absolutamente vazia de sensações, me percebi a caminhar pelas ruas e observar as árvores como se nada se passasse de diferente dentro de mim.
Andei tranquilamente para o azul anil que pintou o céu sem fim
apagou o tom carmin
andei na direção
em que sonhei
um dia te encontrar
alguma outra vez
E segui desde então sem nunca mais tornar a ver
sorrisos da mesma forma em qualquer ser.
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