segunda-feira, 21 de maio de 2018

Olhares impotentes que nunca me deixam só

Todos os dias eu sinto o peso de seus olhares pousados sobre mim.
Minha dor cria gravidade e os atrai continuamente.
Nos momentos em que estou só não tenho esse peso adicional, fico apenas com o meu, velha companhia.
E ele já é o suficiente para partir-me, eu não desejo por mais...
Mas esses olhares me pousam de forma natural, nunca os clamei entretanto não os posso negar.
Eles me acompanham onde vou - não importa com quem estou - não importa se diante deles me sinto falante de alguma misteriosa língua a qual não se é possível, através de qualquer meio, compreender.
Em suas vagas contemplações - ///intransponíveis barreiras me cercam/// - mas não há formas de que entendam que eles que não podem, eles jamais poderão me tocar.
Mas nada impede esses olhos de me encontrarem /sentinelas/ todos os dias dolorosamente repousados sobre a minha existência.
Abruptos eles invadem meu ser. Eu desejaria para-los se eu pudesse.
Não possuem piedade alguma enquanto agitam tempestades em meu ser.
Sei que não são maldosos, mas me esfacelam - retiram-me a perspectiva de forma brusca.
Eu sei que não intencionam criar-me qualquer tipo de dor, mas servem-me como demonstração da realidade inegável de tudo o que houve e de tudo o que me foi renegado ser.
Catastroficamente os batimentos cardíacos nunca cessam.
Venenosamente a minha consciência reflete de forma ilimitada em noites frias.
Contrastando existências dentro de mim, acusando, gritando o que não pode ser solucionado.
Não se pode retirar as venenosas vozes, pois profundamente em mim estão cravadas e sem limites elas ressonam, sem expectativa alguma de que um dia possam parar.
E sobre elas pesam esses olhares e sobre os olhares pesam essas verdades /indizíveis-impregnáveis-inegáveis/ e sobre elas pesa a certeza de que nunca haverá maneira de consertar tudo o que houve.
E tudo isso está sobre mim todo o tempo.
Já não sei quem sou, se sou dor, impotência ou pesares apenas.
Se sou apenas o que esses olhos pousados em mim são capazes de perceber.
Se sou apenas esses olhares dirigidos ao meu ser,
O que resume Anna Karenina? Quem sou eu?
Ás vezes tenho medo de saber, e ás vezes, tenho certeza de que não existem definições possíveis e nem o porquê de que existam.
Não sei onde estou ou em que lugar posso me encontrar.
Existência esmagada - sufocada - sofrivelmente só.
No meio de tudo isso, nada alem de dor é distinguível aos meus olhos, que nunca sabem se olham para fora ou para si, quando a paisagem nunca muda de qualquer forma.


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