Então aqueles dias de solidão sob as árvores no quintal, os tão abatidos monólogos, o sofá, estar sempre perdida e só, tornaram-se lembranças que derretem por entre meus dedos e penetram minha carne para então se perderem entre tantas e tantas outras iguais as quais já toquei e senti e vivi antes.
E os dias de vagar, de esquecer conscientemente meu próprio nome, de não desejar viver sob minha pele, são eternas lembranças, e eu as permito vagar dentro de minha mente, e atravessarem meus dias, pois aquela fui eu de alguma maneira negar isso seria estupidez.
E nos dias de sombra eu posso vê-la e ir até ela.
Deitada entre as flores roxas de inverno, ela estará lá para sempre, completamente só.
Naquele momento de pura solidão - eu a abraço e eu lhe canto músicas de ninar - lhe digo:
"Tudo vai ficar bem, meu amor."
Segurando-a firme em meus braços, sussurrando sutilmente em sua orelha - mãos leves que acariciam os cabelos negros.
Meus olhos veem o que não está mais ali, ultrapassam grades e muros e portas trancadas que os contrariam, e minhas mãos afagam o intocável, sentem o indescritível.
Tudo por um instante de paz.
Eu vejo o céu alaranjado de verão - os pássaros - minha mente não sente mais o peso daquele tempo, ela está livre.
Ainda restam memórias derretidas em meus dedos, mas nenhuma ferida aberta.
Estou limpa, sem sangue em minhas mãos, apenas memórias a se repetir diante de meus olhos e elas machucam só por dentro.
Cicatrizes são visíveis para sempre em meu corpo, eu não pretendo escondê-las de quem quer seja.
Há aquelas que nunca foram reveladas, e estas permanecem gravadas em minha mente, feitas para perdurar muito mais que ardências glaciais na pele, muito mais que o odor de carne queimada.
Feitas para sustentar meu ser.
E então, por fim conquanto chegar o momento correto, feitas para a ele aniquilar.
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