segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Morte II

Permaneço imóvel.
Os meus olhos já cansaram de ver.
O que faço para voltar atrás e não saber?
Gostaria de encontrar-me novamente com a ignorância e nela afundar os meus pensamentos.
Porém não posso mais.
Meu corpo estremece e para.
Extingue-se a flama, anoitece outra vez.
Os meus olhos se fecham, inútil e tardia ação.
Por instantes estiveram mortos, e em nenhuma hipótese poderiam distinguir o que estivesse diante deles.
Meu corpo não está nenhum centímetro além.
Agora saber é inexorável.
No entanto eu poderia prever.
Sim, sim. Eu poderia.
Apenas não saberia dizer antes "quem?".
Esta informação eu tenho ao meu alcance somente quando já perdeu seu valor.
Entretanto que se dilacere meu interior em dor, eu permaneço imóvel.
Da minha boca ainda não saiu som.
Talvez minhas cordas vocais estejam congeladas.
Nada meu rosto esboça.
Sigo em frente diante disto.
A violência prevaleceu sobre mais um corpo. Mais uma vez eu a provei.
E houve imperceptível valor intrínseco em seus últimos atos, no reconhecimento da inação, no abandono invadindo até o fundo de sua alma, e então, se fez escuridão ao seu redor.
Assisti impotente quisera eu que fossem cegos os meus olhos, quisera eu que fosse banido o ato pensar.
Esse horror que vivemos veio a mim mais uma vez, assegurando sua posição nos meus pensamentos diários, relembrando aquilo que meus olhos cansaram de ver, que meus lábios - incompreensíveis - por vezes tentam exprimir.
Repetitivamente, incansavelmente...
Eu estou exausta, não consigo concluir porquê ainda sigo viva, conquanto que imóvel, ao menos viva.
Meu adeus é inaudível, minhas palavras não tem mais forças.
Meu corpo se endurece de perguntas cujas respostas despedaçam meu ser, e eu queria não saber, eu queria não fazer tantas perguntas, eu queria não pensar em nada disto.
Por que se tornou necessário o - solicito e diário - pedido de um pouco mais, por favor, um pouco mais de humanidade... Por vezes me pergunto inutilmente, noite adentro minha mente não descansa.
No que compreende o conjunto de atos que se atribuem ao ser humano?
O que significa isto? O que significa "ser humano"?
Finjo não saber.
Falsamente eu repito as respostas plausíveis ao meu coração mas eu sei que são mentirosas.
Meus olhos mais uma vez abertos comprovam aquilo que com reviravoltas em meus pensamentos eu insisto em negar, e que com a minha boca insisto em contestar - agora uma voz fraca porém audível.
Sou uma tola por perder meu tempo com essas ações.
Estou fadada a me envenenar seja da forma que for.
Todo o ar que se respira por aqui é tóxico.
Toda a terra por onde se pisa está contaminada.
Camadas e camadas, exaustivamente se estuda a sua destruição.
Toda a água traiçoeira finda muito além da nossa sede.
Nas asas dos pássaros voam as (ainda) não nomeadas doenças, e haverão de misturar muitíssimos números e letras afim de que haja maneiras de separa-las todas, e de classifica-las através de seus símbolos.
Porém já não somos todos nós criaturas doentes?
Nossos corpos gananciosos contaminam toda a natureza.
Um dia foram puros, um dia estiveram consonantes com ela... mas o caminho se esticou pra tantos lados, aonde chegamos?
Só sei dizer onde eu mesma estou.
Só sei dizer que me sinto muito só por aqui.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Oh, just say something, bye