sábado, 20 de agosto de 2011

- onde você esteve?
- estive fazendo jardinagem.

- jardinagem onde?
- num lugar que eu conheço bem.

- e o que você fez?
- arranquei umas flores. umas flores perigosas
- e como você se sentiu?
- doeu.
- eram apenas flores.
- não eram flores quaisquer
- isso é uma metáfora? quais flores eram?
- flores de esperanças.

- porque você as arrancou?
- porque nascem decepções em sua volta.
- eram muitas?
- na verdade, era apenas uma.
- como foi parar ali?
- semeou-se com palavras suas de outras manhãs.
- e porque você a arrancou? floresceria belíssima
- as decepções.
- entendo... então foi o medo.
- também, mas não me julgue agora. eu arranquei a esperança, mas a decepção acabou nascendo ao lado da esperança que não mais havia. gostaria de entender o motivo?
- talvez você não tenha retirado as raízes com força suficiente.
- eu não sentia vontade propriamente
- então pra que fazer isso?
- era preciso. afinal, eu não mereço as decepções que você me planta.
- eu já pedi desculpas antes
- eu não quero desculpas, tenho um jardim inteiro delas.
- o que você quer?
- eu quero que você pare.
- não posso parar, e eu sei que voce não quer isso de verdade.
- você está certo. eu odeio quando você está certo, mas eu odeio mais ainda quando eu estou certa.
- entao o que você quer?
- antes eu queria pegar aquela rosa.
- que rosa?
- aquela que floresce todos os dias, no monte mais alto, mais longe e mais turvo. aquela, cujo os espinhos são venenosos.
- ...
- aguardando alguém que a tire daquela solidão horrível e lhe mostre como o mundo é belo.
- ...
- ela é única, e está lentamente desaparecendo.

- eu sinto muito não posso fazer nada.
- isso não é uma novidade.
ela virou as costas.
- onde você vai?
- ...
ele não se moveu, mas a sua boca se manteve aberta por alguns instantes, sem dizer nada, não que ele não tivesse nada a dizer.
- me espere. é só um tempo, eu prometo.
- eu também tenho um jardim cheio de promessas.
ela continuou andando.
- só por enquanto.
- vou regar a sua promessa todos os dias.
ela deu meia volta, e sentou ao lado dele de novo.

- não plante mais esperanças no meu coração, por favor.
- eu não consigo me controlar, desculpe-me.

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