eu guardo
bem no alto
longe de todas as facas
longe de todas as mãos
que insistem em querer tocar
que insistem em querer cortar
que insistem em querer pegar
a maior reliquia de mim mesma.
é difícil explicar
eu reservei um lugar
bem no sotão de mim
um lugar do tamanho de um quarto
onde eu guardo a mim mesma.
me mantenho lá
sentada e só
vivendo apenas de mim mesma
me mantenho lá
com toda a luz e toda a sombra
eu me mantenho lá
porque eu tenho medo.
lá fora é muito difícil.
ás vezes eu escapo
saio correndo de dentro de mim
e invado algum outro lugar
em alguma outra pessoa
ás vezes eu me perco
ás vezes eu me machuco
e ás vezes, eu não volto cedo.
eu sempre acabo voltando, porque de verdade
eu gosto do meu quarto.
gosto de viver nesse sotão.
gosto de respirar o meu ar
gosto de sentir os meus sentimentos
quando se trata de mim mesma
eu entendo tudo.
sei cuidar de mim
sei o que eu quero
eu sou inconstante
sim, sou
mas eu me conheço.
as surpresas fazem parte de um mundo que às vezes é previsível demais.
é difícil de entender...
é que eu já me acostumei
com as minhas idas e vindas.
já me acostumei com as minhas mentiras pra disfarçar a dor
é só não ligar.
essa é a ideia.
que não percebam.
é muito bom
o meu quarto no sotão de mim mesma.
é muito aconchegante, eu conheço cada buraco na parede, cada cor, cada dor de mim mesma.
cada mínimo detalhe
eu conheço isso, posso andar de olhos fechados, posso me atirar de cabeça.
eu tenho certeza de tudo.
então eu mesma pergunto antes mesmo que você pergunte:
porque eu vou embora?
eu fico entediada com tanta segurança e procuro alguma aventura.
eu volto pro quarto sempre que posso, para cuidar de mim.
lá fora é muito perigoso, e eu sempre me machuco porque sou muito boba.
mas eu sempre vou, porque eu acredito em tudo.
é o que eu disse, sou boba.
não adianta, não adianta.
eu nunca aprendo com as feridas.
lá vou eu, lá vou eu.
não se importe se eu demorar.
não se importe se eu estiver sangrando quando eu voltar.
já é normal.
adeus.
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Oh, just say something, bye