Guardo-me no silêncio, e divido as minhas palavras apenas com o vento, e os pássaros, e as árvores, e as folhas, e as flores.
Estou só - com eles.
Eu sei que eles me escutarão e não deixarão jamais de apreciar-me.
Apreciarão o som da minha voz e a forma que eu digo as palavras, mesmo que sejam idiotices sem significado aparente.
Irão tocar-me, ninar-me, acalmar meu coração.
Irão dizer-me: Estais bem, meu bem.
Seremos assim um.
Sinto até as pontas dos galhos, sinto até o sol aquecer-me, estou eu lá, voando nas asas de algum pássaro.
Penso que por que são vagos eles nunca tiveram muitas pessoas que os admirassem.
Mas eu os admiro, eu me partilho com eles.
Somos um todo agora.
Não ligo mais para os significados que tudo possa ter.
Prestas atenção demais as palavras que podem vir a dizer, ou nos motivos de soprarem as coisas para longe, de crescerem mais para a esquerda ou para a direita, ou florescerem num dia sem sol, pois eu sinto o vento embaraçando o meu cabelo, eu sinto as folhas balançando dentro da minha mente, eu sinto o perfume das flores exalar dentro de mim, sinto até o gosto do céu e sei que disto gosto.
Entenda que se tratam de existências que não precisam de motivos para agirem.
Não justificam em palavras seus próprios atos por talvez considerarem ser impossível descrever a sensação de ser o vento batendo no rosto de alguém, ou a folha que faz sombra no pássaro e na flor.
Pois assim sou também um dia me disseram.
Transparente, ofuscada por todas essas luzes e esses olhos que atravessam até as minhas tripas.
Que até meu sangue sugam.
Que até meus profundos desejos conhecem.
Incompatível com a realidade, disforme.
Vazia.
Derreto ao mínimo toque, sofro se me pensam, tenho medo se me sentem, não suporto o amor e seus fardos.
Perguntam-me se me sinto bem, perguntam-me por que sou tão vaga, tão perdida, tão distraída.
Respondo-lhes, "Aqui não há nada."
Só há a transparência inocente do meu ser.
E a minha boca cheia de palavras e minhas mãos cheias de dor e nada para remediar.
Esses então são alguns motivos de eu ter me acostumado tão bem ao canto doce dos pássaros na manhã, e os galhos balançado fingindo ser chuva para os meus ouvidos, o vento leve querendo me levar, a vida que exala de todos esses lugares, tudo respira, então por que não iria querer eu respirar?
Por estar só?
Estar só é normal. Todos estamos. Todos sempre estivemos.
Como um dia nos tornamos capazes de virar as costas à alguém, um dia também a quem nos vire as costas e se vá.
Sentada só, no meio deste vazio.
Aqui existo tão bem.
Aqui existo também, apesar de só.
E não há com o que me preocupar.
Posso sorrir as folhas, e existir com as flores, pôr me ao lado delas. Quem sabe, florescer?
E o vento vai puxando-me levemente, sussurrando meu nome.
Vou indo com ele.
Estou com ele, agora que não há mais ninguém comigo.
O silêncio é precioso ele me disse.
Por isso o tenho.
E por isso o guardo.
Anna menina dos pés das cordilheira dos Andes, quando a poesia nasceu antes de ti, e mesmo antes, já existia.
ResponderExcluirOh, :)
ResponderExcluir