terça-feira, 24 de julho de 2018

Displicentes verdades

Tu me dizes palavras, e eu sou capaz de sentir o gosto delas.
Quando invadem meu corpo, displicentes, tornam-se verdades.
Antes disso eram apenas palavras, e antes delas, apenas a tua boca pela qual anseio inexplicavelmente todas as manhãs.
Agora verdades amargas encrustadas em minha pele.
Das quais não possuo hipótese de me libertar.
Tu me olhas fugaz, e eu queimo como se fogo se lançasse do teu olhar.
Quando cada ínfimo pedaço de minha existência desaparece em flamas diante de ti percebo o real valor que ela te representa. Fui feita para ser consumida.
Antes apenas tua imagem distante e pacífica, um fortíssimo odor inesperado no ar, confusão.
Agora meu corpo desfeito em cinzas - dominado pela inépcia - se esforça em vão para permanecer.
Não posso reparar os seus atos de nenhuma forma.
Você pode ver, são todos seus.
E eu, sou toda minha
E nada mais há de ser posto.
Tu me trazes o silêncio ensurdecedor da dúvida, e eu o internalizo, permito poluir os meus sonhos.
Quando cada certeza que há em meu corpo desvanece no céu azul há muito menos do que eu pensava haver, está tudo se apagando e eu não pude me conter.
Antes olhos que no cintilante horizonte se perdiam a sonhar.
Agora toda a escuridão que se possa imaginar.
Da qual faço parte sem nem ao menos ambicionar.
Não posso me controlar diante disto, nem mesmo posso me afastar.
Em meu coração não consigo relevar essa vontade que existe e que sempre cresce, esse ímpeto que rege meu corpo que diz "nunca deves parar".
Tu rompestes o laço que eu atei em puro amor, e num turbilhão agridoce eu me afoguei em pavor.
Quando soltastes - flutuei - e onde estou agora é irrelevante a ti.
Antes disso um belo laço, demonstração real da minha ilusão banal.
Agora somente ausência.
Tu me abandonas, e eu me sinto tão bem só.
Quando teus passos indistinguíveis seguiram o rumo incerto da tua existência, por um momento meus olhos ameaçaram transbordar.
Antes disso pensei que nunca irias partir.
Agora sei qual era o peso da tua existência sobre a minha.
Da qual eu fui, felizmente, poupada.


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